uma amiga minha decidiu, de há uns anos a esta parte, 'lutar contra o sistema'. significa isto, neste caso, que está voluntariamente desempregada, recusando a rotina 9-to-5 e afins, fazendo ouvidos de mercador às vozes 'sensatas' que lhe exigem o retorno ao ram-ram, e aprendendo a viver com o mínimo, materialmente falando. sabe que isto não pode continuar eternamente, que os fundos que há tempos amealhou com o seu trabalho além-fronteiras têm um fim, ou seja, não é de todo alheada do mundo. não tem filhos, o que ajuda.
decidiu então esta minha amiga que era chegada a hora de perceber o que realmente quer da vida, e simultaneamente de estar atenta aos sinais que a própria vida lhe envia. iniciou assim uma já longa busca, que a tem levado a contactar as mais variadas realidades exteriores, à procura de uma verdade que lhe faça sentido.
mas, acima de tudo, obrigou-se a olhar para dentro e a aprender a viver consigo própria, sem qualquer espécie de rede, nem que seja a do tempo dividido em afazeres (de que tanto nos queixamos mas que é um consolo ao mesmo tempo - não é?). tem passado horas, dias, semanas, meses a permitir-se pensar sem distracções. tem conhecido dentro de si fontes de luz e recantos de trevas.
amiga, se leres isto recebe o meu forte abraço de admiração.
costumo dizer que a minha mente não pára, torna-se mesmo incómodo não conseguir deixar de pensar. porém, devo admitir que teria grande dificuldade em fazer o que a minha amiga fez e faz. é que pensar ao mesmo tempo que estou a dar conta das milhentas tarefas do meu dia, a trabalhar e a cuidar dos filhos, não é o mesmo que
parar
parar é mesmo complicado
retomando o 'whatever'. a minha vida anda um bocado whatever. it takes me where it takes me, i just go with the flow right now, i can't afford to do things any other way, i feel.
a minha amiga recusou e parou o fluxo do whatever.